Educação e valores

O cotidiano das pessoas na atualidade é marcado por compromissos, agendas lotadas,
responsabilidades no trabalho, em casa, com amigos e namoradxs. Ter tempo livre é quase impossível. Vivemos atrasados.
Na realidade vivenciada pela sociedade líquida, conceito este criado pelo sociológico polonês Zygmunt Bauman, não há tempo a perder, inclusive, para refletir sobre os valores mais básicos de nossa existência. À primeira vista, pensar sobre cooperação, solidariedade, democracia, sustentabilidade e outros valores nada nos acrescenta para realizarmos nossos afazeres diários.
É comum ouvir a reclamação e o desejo de menos teoria e mais prática. O grande problema é que, de fato, reflexos desse tipo impactam em nossa formação cidadã e na realidade que vivemos.
A educação é o processo contínuo onde esses valores são refletidos, debatidos e aprimorados.
Na escola, em casa, no trabalho, na política são lugares onde traduzimos nossos valores em práticas.
As falhas nesse processo de formação representam as prováveis explicações para os
distúrbios que vivemos na atualidade. O cenário político brasileiro de hoje, por exemplo, tem relação com o longo processo de formação educacional da sociedade brasileira. Corrupção, falta de ética, baixa representatividade e cálculos eleitorais sórdidos. Tudo isso está relacionado com a formação.
Diante de toda essa complexidade, o Crea+ Brasil apresenta um diferencial central. Sua atuação está balizada de maneira muito concreta com determinados valores, consolidados no Projeto-Político-Pedagógico e praticados semanalmente aos sábados. Senso de comunidade, cooperação, autonomia, empoderamento e cultura de paz são alguns dos conceitos basilares do Projeto, os quais não estão somente no papel ou na teoria, mas perpassam a prática da centena de voluntários envolvidos, tanto durante os sábados quanto nas horas trabalhadas durante a semana para preparar todo o material.
Ao transformar seu método de trabalho, o Crea+ Brasil se atualizou em relação às demandas sociais contemporâneas. Sem deixar de lado a importância dos conteúdos curriculares, o Projeto dialoga com metodologias mais sintonizadas com a realidade, tal como os projetos interdisciplinares e as oficinas culturais e esportivas. Os conteúdos das disciplinas tradicionais como matemática e português são trabalhados considerando igualmente as habilidades não cognitivas e socioemocionais, característica que também destaca o diferencial do Projeto.
Acompanhar, mesmo que de longe, os caminhos trilhados pelo Projeto ao longo dos anos, é motivo de muita alegria e comemoração. O Crea+ Brasil requalifica o conceito de trabalho voluntário ao entender que “voluntário” diz respeito exclusivamente ao impulso inicial de cada um em participar da iniciativa. “Voluntário” nada tem a ver com pontual, quando puder ou de qualquer jeito.
Claro que esse valores e práticas também são trabalhados por outros movimentos
educacionais e em outros espaços. Fato este que, joga um pouco de luz e ânimo para o
cenário educacional brasileiro.
Que nossa sociedade tenha mais tempo para refletir e debater sobre os valores que lhe
interessam. Que valores centrais como cooperação, ética e solidariedade, sejam de fato
compartilhados pela maioria da sociedade brasileira. Que seja mais visível a relação tão
estreita entre os valores e a nossa realidade.
Se esse debate ocorrer, será possível ver na prática uma sociedade melhor. Uma sociedade que valorize os profissionais de educação, que respeite os direitos humanos, os direitos de gênero, os direitos indígenas e quilombolas. Se esse debate ocorrer, estaremos menos propensos a vivenciar retrocessos em termos de trabalho escravo, em proteção ao meio ambiente, e mais próximos a uma vida segura e saudável.

Texto por: Guilherme Checco, ex-voluntário

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Oficinas de grafite no Crea+

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Nos dois primeiros sábados de aula de Crea+ no mês de abril, foram realizadas oficinas de grafite nas escolas em que o projeto atua. No primeiro deles, dia 1º de abril, foi a vez da Escola Odon Cavalcanti e no dia 8 de abril a vez da Escola Daniel Verano.

Mas para contar essa história, precisamos voltar um pouco e explicar os porquês de estarmos fazendo essas oficinas nas escolas!

O grafite, um dos pilares da cultura hip hop, tem se estabelecido como uma das principais formas de expressão dos jovens das classes populares, moradores das regiões periféricas das grandes cidades do Brasil. Porém, apesar de ser uma forma de expressão artística, o grafite não tem muito espaço para dentro dos muros das duas escolas (nem nos muros de fora!).

No ano passado, os educandos da Daniel Verano tiveram a oportunidade, em um dos projetos desenvolvidos no segundo semestre, de elaborar os desenhos e pintar um grafite enorme em um dos muros da escola. Foi incrível. Desde a aC:\Users\User\Downloads\IMG_20161112_134324210.jpgceitação da direção da escola para esse projeto, passando pelos desenhos criados pelos educandos, extremamente representativos daquilo que eles sentem e veem no mundo em que vivem, daquilo que eles querem dizer para esse mundo e nele deixar uma marca, até a hora (as horas, já que a última etapa durou quatro sábados de aula) de pegar as latas e colocar a tinta no muro. E o resultado foi impressionante!

Pois bem. Nesse início de 2017, após a definição dos temas de projetos e oficinas, a apresentação deles e a escolha, por parte dos educandos, das turmas, as aulas começaram e a temática do grafite, assim como a de outras expressões artísticas (rap, funk, dança, etc.), reapareceu com muita força! Em um dos projetos da Daniel Verano em especial, por influência ou não do grafite realizado no semestre passado, a demanda dos educandos por mais atividades desse gênero foi bem marcante. Eles queriam transformar o espaço da escola, trazer melhorias, deixar a marca deles e delas nas paredes e na estrutura daquele lugar, que é de todos que ali convivem, mas principalmente deles.

Em paralelo, uma boa coincidência. O Alex Romano, grafiteiro que auxiliou na elaboração do grafite que já havíamos feito, entrou em contato com o Crea+ com uma proposta de intervenção em escolas. Ele, junto com um grupo, estava promovendo o lançamento de um curta-metragem chamado “São Paulo na Lata”, produzido pelo diretor Guilherme Valiengo, junto ao Programa de Ação Cultural – ProAC – que tinha como contrapartida, a exibição do curta em escolas públicas de São Paulo, seguida de oficina de stencil. Grata surpresa e grata oportunidade de unir essas duas iniciativas, inclusive levando a ideia para a Odon Cavalcanti.

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Após breve discussão sobre como conciliar essa oficina com as atividades realizadas no Crea+ e conseguida a autorização (com bastante entusiasmo, diga-se de passagem) das escolas, era hora de levar os educandos das duas escolas para a prática!

A exibição do curta-metragem, nas duas escolas, foi um sucesso. O filme, trazendo, na linguagem dos jovens, a temática da arte urbana, da sua valorização ou desvalorização enquanto arte e enquanto expressão cultural, suscitou discussões bastante interessantes entre os educandos, os educadores, o Alex e o Guilherme. Interessante ver como os educandos se envolvem em questões que dizem respeito a eles, à maneira deles serem na comunidade em que vivem.

Em seguida, mão na massa! Os alunos cortaram os moldes para o stencil, levados já impressos pelo Alex e pelo Guilherme, com figuras que permeiam o universo deles. Moldes cortados, hora de aprender a usar a lata de tinta e de colocar aquelas imagens no muro! E foi, também, um sucesso. Com respeito aos materiais e ao espaço, os alunos foram preenchendo os muros, antes monocromáticos, transformando-os em muros coloridos e cheios de vida.

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Crea+: Prazer em fazer acontecer! Que outras atividades como essas, que deixam as marcas dos educandos nas escolas, que nos ajudem a perceber que aquele espaço é deles e que eles têm que participar na transformação da escola em um espaço mais acolhedor, aberto à cultura que eles trazem para dentro.

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Agradecimentos mais que especiais ao Guilherme e ao Alex, que não só nos procuraram para fazer essa atividade no Crea+, mas que correram atrás de todos os mínimos detalhes para que conseguíssemos concretizar esse projeto!

[Fernando Sirota – Relacionamento com a escola Daniel Verano]

Cadê a notícia que estava aqui?

Bloquinho de anotações em uma mão, câmera fotográfica na outra. Foi assim que os alunos da Oficina de Mídias circularam pela Odon Cavalcanti no sábado (25). Atentos aos detalhes, os alunos-repórteres viram com outros olhos a escola que frequentam diariamente, e se surpreenderam com o que até então era cotidiano.

“É possível encontrarmos notícias aqui na escola?”, perguntei logo no início da aula. “Talvez sim”, “acho que não”, “quem sabe?”, responderam. Ainda na sala, retomamos as conversas sobre o que é notícia, com a apresentação das notícias criadas na aula passada. A partir de imagens recortadas de jornais, os alunos escreveram a manchete e o lide, ou seja, o título e as informações que introduzem o leitor no texto. Dinossauros de pedras encontrados na Islândia, Capitão América desaparecido na Antártida e Coreia campeã do prêmio “Melhores Músicas do Mundo” foram algumas das pautas pensadas por eles.

Texto apresentado, hora de explorar cada canto da Odon. Divididos em grupos, os alunos se espalharam pela escola em busca de notícias. Tudo o que eles consideravam relevante era registrado: os armários no corredor do segundo andar, o refeitório vazio, a presença de joaninhas e borboletas, os sacos de lixo na garagem, a mesa de pebolim remendada, os buracos no muro, a estrutura dos banheiros, as plantas invadindo a quadra. Enquanto um fotografava o pé de jaca recém-descoberto, o outro observava a aula de culinária dos aprendizes.

O desafio era conseguir responder as seis perguntas que estruturam uma notícia: o quê, quem, quando, onde, como e por quê. Um aluno resolveu essa questão entrevistando o educador da Oficina de Jardinagem, concentrado na construção de uma horta com o seu grupo.

Os minutos finais da aula reuniram o grupo. Cada um teve o seu momento para compartilhar percepções, fotos e anotações. Conversamos sobre o que conseguimos ver quando estamos dispostos a enxergar, e que é no comum onde estão as notícias, à espera de um olhar atento que as descubra. “Agora eu vou ver a minha escola de outra maneira”.

[Nathália Aguiar – Oficina de Mídias – Escola Odon Cavalcanti]

Com papelão, um violão…

No último sábado, durante a Oficina de Música, os educandos da Odon Cavalcanti (OC) se surpreenderam: quem diria que, com uma caixa de papelão, cola, fita adesiva, tesoura e linha poderiam construir um violão?

Foi o que aconteceu: ao trabalhar em duplas, os estudantes ainda desenvolveram a cooperação para elaborar o instrumento musical. Após o trabalho manual, todos se divertiram e testaram a invenção que possui notas musicais semelhantes ao violão de verdade.